Entro no café – busco o calor do ambiente para aquecer meus anseios repentinos daquela sexta-feira gelada . Uma olhada rápida em volta me traz algumas informações: um grupo de três mulheres muito bem vestidas na mesa mais próxima à saída degustando seus chás blends e conversando sobre suas vidas numa batalha íntima e feroz de egos, onde a viagem à Europa de uma não pode ser mais importante do que a promoção para o emprego dos sonhos de outra. Um homem com um grosso casaco, aparentando meia idade, encostado numa mesa colada à parede do canto esquerdo do salão. Ao passar por ele e me dirigir ao balcão para fazer o meu pedido, consigo apenas ouvir murmuros inaudíveis do que parece ser uma música antiga. Músicas de sua terra natal, talvez? Não que eu me importe, mas seu semblante alheio à realidade e aquilo que outrora devia ter sido uma caneca fumegante de café trazem-me uma sensação súbita de piedade para com aquele homem que nunca havia visto na vida.
Mas quem sou eu para sentir piedade dos outros? Logo eu, que entro naquele estabelecimento apenas para passar o tempo e ser mais um a lamentar as oportunidades perdidas, reclamar de tudo, ou ainda, quem sabe, começar a entoar músicas que só eu conheça num volume baixo demais e de maneira descoordenada para que nenhum desconhecido que venha a cruzar meu caminho consiga distinguir algum dos versos e tenha algo para encher a cabeça por um punhado de minutos, antes que seus próprios problemas o tragam de volta à realidade. Quem sou eu, para achar que os problemas das pessoas sejam meras questões simplórias, menos interessantes e portanto menos dignas de atenção, como se cada pessoa ao entrar no apertado café passasse por uma espécie de pesagem emocional, para determinar o nível de interesse por parte dos demais?
Você pode estar pensando… Essa é uma atmosfera opressiva demais para um simples pub, e um lugar com essa clientela não pode jamais ser considerado convidativo. Hmm… na verdade, não. O local é bem iluminado, bem decorado, mobília simples mas de muito bom gosto, com um toque refinado e meio rústico que evoca uma sensação intimista e de contato com os sentimentos interiores. Me arrisco a dizer que é um ótimo lugar para trazer a namorada depois de um passeio, vir com os amigos depois de um programa mais agitado, colegas de trabalho durante os minutos de folga do serviço, ou até vir com o cachorro depois da caminhada no parque, se a direção assim o permitisse. A equipe do café é bastante atenciosa… Nada fora do normal, mas o bastante para criar uma sensação de bem estar coletivo, e quem sabe prender o cliente por mais uma xícara de café, ou mais um brownie – não sou especialista em bolos e doces, e tudo aquilo me pareciam brownies. Se não eram, azar. Para efeito dessa narrativa, passaram a ser – à disposição no balcão, ou ainda, um dos croissants com recheios estranhos mas convidativos. Então, porque a amargura?
Não, meu problema não é o lugar. É o que me levou até ali. Aliás, o que me levou até ali? Nem eu mesmo sei. Nunca havia ido até aquela loja, ou em nenhuma nos arredores, mesmo que esta rua estivesse sempre no meu caminho de casa até o serviço. Acho que foi apenas a necessidade de ver outras pessoas, em momentos de relaxamento, em momentos de ócio, em momentos de dispersão da realidade do mundo exterior. É claro, existe também o motivo lógico: a tarde fria que faz lá fora enquanto neva continuamente desde o início do dia, tornando qualquer caminhada simples numa luta de perseverança e força de vontade. Desde o início da semana, a temperatura cada vez mais severa mudou a paisagem da cidade bem como o vestuário de seus habitantes, comigo incluído. Mas também não foi isso que determinou minha parada naquele ponto em especial. Ainda existem outros motivos a serem discriminados, mas não por agora.
Voltemos ao café. Chego ao balcão e peço um café especial da casa, com aromas especiais de avelãs de uma variedade única colhidas da região, segundo me conta a atendente simpática do balcão (já mencionei que todos aqui são simpáticos?). Recuso qualquer outra coisa além do líquido negro aquecido, e escuto uma nova explicação sobre a exclusividade dos ingredientes que minha mente desiste de tentar registrar. Mantenho-me no balcão um pouco mais de tempo, esperando o meu café. Por um momento olho na direção da porta, como se esperasse que a minha alma gêmea adentrasse por aquela porta adentro, e por minha vida adentro… Mas isso é assunto para quando chegar o meu desejado café…