SUSTO NA MADRUGADA

Andrei acordou assustado, ouvira uma pancada que não pôde determinar a origem, provavelmente porque tinha despertado de forma abrupta, não sabia se tinha sido sonho ou realidade. Esperou mais um pouco, olhou a hora no despertador que ficava no criado mudo, viu que marcava 02:33 da madrugada, muito cedo, ainda podia dormir por, no mínimo, mais quatro horas. Decidindo que havia sido mesmo um sonho resolveu voltar a deitar, mas quando estava perto de encostar a cabeça no seu suave travesseiro a pancada soou novamente, parecendo desta vez ainda mais forte.
Tinha se mudado há pouco tempo para um antigo e pequeno apartamento que tinha sido herança da sua avó, Andrei nunca fora medroso, mesmo tendo passado toda a sua infância ouvindo histórias de fantasmas da sua avó Ana que sempre dizia para as crianças que elas deveriam temer os vivos e não os mortos, mas ele, na sua inocência infantil, nunca aceitava o conselho e dormia temendo os fantasmas dos contos dela. Hoje, na idade adulta, ele entendia o que ela queria dizer, acreditava que os fantasmas que arrastavam correntes só viviam na imaginação dos contadores de história e realmente tinha aprendido a temer os vivos.
Saindo da lembrança da infância, Andrei desceu as escadas, já que parecia que o barulho tinha vindo do piso de baixo, percorreu os outros cômodos da casa, sem encontrar nada fora do lugar, até perceber um pequeno movimento no quarto que tinha pertencido a sua avó. O estômago revirou e um calafrio percorreu sua espinha, respirando profundamente, se armou do primeiro objeto que viu, uma raquete de tênis que estava encostada na parede. Aparentemente armado, abriu a porta do quarto o mais silenciosamente possível, se encolhendo ao ouvir o rangido das dobradiças envelhecidas.
Depois de abrir a porta e não ver nada no escuro, decidiu ligar a luz e viu pequenas formas correndo pelo chão e sobre um baú envelhecido, ratos, a sensação de alívio que o percorreu quase enfraqueceu suas pernas e o derrubou no chão poeirento. Rindo de si mesmo, desligou a luz e pensou que a primeira coisa que faria na manhã seguinte seria contratar uma empresa de dedetização e uma de limpeza.
Voltou para o seu quarto, rindo de cabeça baixa, mas ao passar a porta viu um vulto sentado na cama. Como se o tivesse esperando, o vulto se virou para ele e sorriu, era uma moça com longos cabelos ruivos e um vestido que parecia bem antigo, petrificado com a visão, a única coisa que conseguiu foi perguntar “Quem é você?”, “Olá Andrei, sua avó nunca lhe disse que as histórias que ela contava para você foram ditas por mim? Estou presa nesta dimensão como punição por ter me suicidado após assassinar meu marido e meus enteados e a única coisa que me manteve sã até então foram as histórias da minha vida que eu compartilhava com Ana, mas agora que ela se foi acho que terei que compartilhá-las com você.”